Exhibition

LINHAS

LINHAS

Outros Artistas

Individual Marcelo Caldas

Linhas, Marcelo Caldas

A obra de Marcelo Caldas caminha por uma operação de se construir campos ampliados de sensibilidade a partir de resíduos e objetos industriais. Seus trabalhos envolvendo jornal e ferro se conectam com uma ideia de tempo-duração, ou seja, temos no exercício da percepção dessas obras, a exata medida da passagem ou da constituição de tempo, seja na lenta oxidação do ferro que aos poucos torna aparente as suas rugas (daí a instância do corpo no trabalho de Caldas), ou na precariedade matérica dos jornais, que após passarem por procedimentos artesanais fabricados pelo artista, nos deixam a mostra o seu estado futuro de envelhecimento. O que move inicialmente o trabalho do artista parece ser a necessidade de aprisionar objetos, retirando-os do fluxo do consumo. Como um colecionador, ou arqueólogo, Caldas acumula em seu ateliê jornais, papéis vegetais e ferros. Em certo momento, em uma etapa meticulosa, o artista obsessivamente configura acumulações, círculos quase intermináveis de dejetos abandonados na cidade, e transmite vida a aqueles objetos inanimados. Temos um novo objeto, uma nova forma, constituída de vários, inúmeros exemplares de um ex-objeto. É no processo de seu valor de uso, na sua dissolução numa configuração outra, que os objetos beiram ser nada, até que Caldas lhes recompõe a identidade. No caminho entre deixarem de serem objetos do cotidiano e conquistarem o território da arte, Caldas nos revela dois exercícios constantes nas artes visuais contemporâneas: a relação antropomórfica da arte e a instauração do vazio como elemento constitutivo do objeto. A estrutura de suas obras é, assim, análoga as unidades fisiológicas dos seres vivos; elas se desenvolvem como um organismo ou como uma célula-ovo que se submete a sucessivas divisões. Suas esculturas desenvolvem relações com um corpo que transita entre a representação e a sexualidade. A constelação de tais afetos e linguagens forma uma realidade sensível, corpórea, que embora invisível é a demonstração de um mundo compondo-se e recompondo-se singularmente na subjetividade de cada um. A organicidade se confunde com a transparência desses objetos. Podemos ver o seu esqueleto. O vazio se impõe como ativo. Na economia de métodos e gestos de Caldas, o vazio não é sinônimo de nada mas relação de espaços, expansão da forma e da matéria. Na melhor tradição do ferro como matéria-prima para as artes, Caldas faz quase por desaparecer a massa e o peso desse material. Em seus cortes e dobras (Amílcar de Castro seguramente é uma de suas referências), Caldas promove a maleabilidade da matéria no espaço. 
Felipe Scovino